AS CRÓNICAS NO «RAIO DE LUZ»: JULHO DE 2014
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A primeira vez que ouvi o nome do Daniel Pires escutei-o da boca de Manuel Medeiros, esse açoriano improvável que certo dia, há quatro décadas, assentou arraiais nas bandas do Bonfim para se tornar o decano dos livreiros em Setúbal. No Outono passado, quando os plátanos se despiam no Parque adiante, o velho Medeiros foi no encalço das folhas, deixando-nos com a idade de 77 anos, na extrema austera da dilação jovial que a revista Tintin assinava aos seus leitores. Apraz-me evocá-lo assim, soltando mitos nas vinhetas, preso ao fascínio imberbe que soletra as tiras nos balões, porque Medeiros, sob a reserva aparente de uma discreta contenção, irradiava aquele ludismo lúcido sem o qual sempre a vida se nos perde em sombra e penitência. Lembro-me como se fosse hoje da dádiva com que agraciou o Rafael, então menininho, por um tórrido sábado de Agosto, franqueando desconto pródigo no estipêndio do brinquedo eleito…
Manuel Medeiros é hoje uma saudade vivaz em quantos veramente amam os livros e sentem o sortilégio que neles há. Bem que a espaços, a Culsete, nau que o ilhéu intrépido fez singrar em lances de afirmação e prestígio, foi para mim, anos a fio, o porto seguro da descoberta e do achado, numa exuberância pejada de títulos raros e fundos de catálogo e culminada, em assomos de prontidão, pelas novidades editoriais. Emergindo da fragilidade delicada que a sua silhueta esguia nos sugeria, muito Medeiros se empertigava sempre que alguém proclamava esgotado um livro que ele, livreiro atento e provido, inexoravelmente ali tinha, bem à mão de semear palavras como imagens nas leiras das nossas almas. Cultíssimo, insigne e afável, este homem sabedor discreteava com gáudio os interesses dos seus clientes, propondo e orientando leituras, versando páginas, conversando capítulos, invocando autores que, com a sua presença, amiúde animavam as quatro paredes daquela sua casa aberta ao mundo e à vida.
Dada tarde, ao fio da conversa, surpreendeu-me com a dilecção que Álvaro Ribeiro lhe suscitava e que, até então, estivera longe de lhe suspeitar. À invocação do nome do filósofo, ergueu-se da cadeira, dirigiu-se a uma estante por detrás da sua secretária onde, logo o compreendi, instalara o seu sanctum sanctorum, pessoal, restrito e inegociável, e de lá voltou com um dos três volumes, cujo título já não recordo, que o portuense ilustre publicara na Colecção Filosofia e Ensaios, da Guimarães Editores.
De outra vez, falando-se de Bocage, comunicou-me, num contentamento solene e definitivo, que o Daniel Pires, estudioso emérito e autóctone, se encontrava a preparar a edição das Obras Completas de Elmano. Mais do que a voz, falou então nele o rosto, da sua face transparecendo a serena beatitude de quem, tranquilo, sabe ter sido observada, pelo conhecimento do mérito, a hierarquia da ordem cósmica. Quem senão o Daniel para aprontar uma tal empresa?
Durante muitos anos, sem que entanto o viesse a conhecer, Daniel Pires foi para mim o “senhor Bocage”, juízo vertido num axioma de autoridade inconsútil. Não obstante, seria o nome malogrado do italiano Malagrida, jesuíta ancião que Pombal, possesso de vindicta, destinara às derradeiras labaredas do Santo Ofício, a motivar o nosso primeiro encontro. De Gabriel Malagrida já Teresa Beleza, também ela admiradora de Medeiros, a quem, nos idos de 90, exaltará em crónica para o Jornal de Sesimbra, me dera a primeira notícia, nas suas lições de Direito Penal, destarte ilustrando, insurgente, a barbárie depositada no afã de punir; mas foi em Sampaio Bruno, nas páginas magistrais e piedosas de O Encoberto, que ampliei a consciência do destino funesto do sacerdote.
Declinava o Outono de 2012 quando fiquei ciente de que o Daniel estava prestes a lançar em Setúbal Padre Malagrida, o Último Condenado ao Fogo da Inquisição. Estive presente no lançamento, na novel Casa da Cultura, dei-me a conhecer e, num repto de exortação, convidei-o a apresentar a obra em Sesimbra, na Biblioteca Municipal. E o Daniel, dadivoso, entusiasta, não disse que não; e por isso veio, logo em Janeiro, no ano seguinte, por um sábado inclemente de intempérie. Veio e voltou, meses depois, para apresentar, desta feita na Casa do Bispo, a sequela daquele seu livro, O Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida, também saído a lume na Colecção Clássicos de Setúbal, com a chancela do Centro de Estudos Bocageanos, casa a que preside em denodado magistério cívico e cultural.
Naquele sábado bravio em que os ventos bailavam infrenes e o céu copioso, esvaído, se abatia em bátegas de implosão, acabara eu, horas antes, de escrever a Teoria Nova da Saudade, onde proponho, como via patriótica, a reconciliação de um superior entendimento entre os legados da Renascença Portuguesa e da Seara Nova. Estava então longe de supor que em breve seria possível concretizar um tal propósito com o Daniel, cuja filiação seareira, caldeada no estudo sério e profundo de António Sérgio e Raul Proença, se o não impede – muito pelo contrário – de respeitar a nobre acção educativa de um Leonardo Coimbra ou sentir a torrente lávica de Pascoaes, o impele ainda ao ponto de fuga onde um Jaime Cortesão, conciliador, nos concita a partilha da maior admiração. E logo em Julho, fará agora um ano, tive o grato privilégio, de, a seu convite, dar a conhecer aquela minha obra na Sala José Afonso…
Sobre Agostinho de Silva, genro do historiador colossal, pude, já este ano, com António Reis Marques, dar à estampa o volume que o vincula à pequena pátria sesimbrense. Causou surpresa a alguns que o livro, transpondo a raia do Alto das Vinhas, houvesse de surgir, por sugestão do Daniel, nos Clássicos de Setúbal. Ao caso insólito e audaz tomei-o porém pelo melhor dos augúrios, sabido o comum património que, de porto a porto, enlaça os dois povos num vislumbre meridional. Falo, como é evidente, da Arrábida em sua sublime insinuação para o céu, e do mar que ao redor a cinge, tesouro que, depois dos colóquios de Fevereiro e Março, em Setúbal, e do ensaio pioneiro com que o Ruy Ventura os coroou, pudemos enfim celebrar em Sesimbra, à entrada de um estio refractário. E o Daniel trouxe consigo, para o primeiro lançamento da nova edição de A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, o seu co-autor António Mateus Vilhena, epistológrafo de Pascoaes e Brandão (que o escaparate da Culsete, pois claro!, me revelara num fabuloso volume de colaboração) e probo latinista que Maria Antónia Vitorino me afiança haver sido, a par de Urbano Tavares Rodrigues, o melhor didacta que a Faculdade de Letras de Lisboa lhe proporcionou…
O volume magistral, que o Daniel e o António agora corrigiram e sobretudo aumentaram, e o Centro de Estudos Bocageanos restituiu à letra de forma, inscreve-lhes a crédito um dos maiores acontecimentos editoriais do ano já meado. É uma recolha monumental, exuberante nos verbetes, cuidada na anotação, exaustiva até à exaustão que, mês após mês, pude testemunhar nos próprios autores, e ostenta na capa a nobilíssima visão a óleo que Rogério Chora relanceou sobre o convento. Por ela, eternos, estacionam Camões, Frei Agostinho, Dom Francisco Manuel de Melo ou um Herculano rendeiro, muito senhor do seu Calhariz. Vêm depois Pascoaes, Torga e Sebastião da Gama, sem esquecer os históricos setubalenses que, entre o popular e o erudito, de Calafate a Arronches Junqueiro, cantaram a Serra-Mãe, e as gerações novas de um Avelino de Sousa e de um Ruy Ventura, que o apelo da região, inexorável, resgatou ao rincão transtagano. Da camonina Piscosa já lá constava, vindo da edição princeps, o ínclito Joaquim Brandão, tornado edil de Setúbal logo após a implantação da República; mas a ânsia perfectiva do Daniel levou-o a perguntar-me por outros sesimbrenses que houvessem celebrado a Arrábida. E assim puderam ecoar, escalando as vertentes da montanha, os versos brônzeos de um Joaquim Rumina, o ingénuo frescor gracioso de Romeu Embaixador e a quadra, singela, mas fundamente filosofal, que António Telmo consagrou ao belveder da Achada. Em verdade, em verdade vos digo, nas comarcas do espírito todas as fronteiras nos condenam…
Pedro Martins